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Archive for junho \30\UTC 2010

O texto abaixo já havia sido postado em janeiro passado. Acontece que o deletei acidentalmente. Resolvi postar de novo, ok?

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Minha avó foi desde sempre uma mulher gorda. O que chamo de sempre refere-se aquele ‘desde sempre’ da infância, um passado tão curto. Não se falava em obesidade nesta época, como também não se falava em depressão, esta palavra macerada nestes tempos em que vivo e de onde volto os olhos para trás.

A vó era uma mulher de rosto delicado, lábios finos, nariz retilíneo, como já havia visto em minha mãe – sua filha – e em meu irmão. Eu a via, assim, redonda, em um tempo onde não tinha nenhuma observação a fazer sobre forma, moda, hormônios, e estas descobertas que com o passar dos anos vêm a nos ocupar a vida. Grande, ampla, cheia de respeito. Esta a imagem, até o dia em que chegamos à sua casa em outra cidade para testemunhar a morte.

Miúda, indefesa e frágil, ali estava a minha avó. Aquele quarto, até há pouco cidadela, agigantou-se, perdeu contornos e abrigos, e a janela por onde eu tinha visto certa vez uma lua crescente, estava fechada. Sem gente respirando livremente, arejando paredes, tetos e assoalhos, não há o que chamar de vida. Assim, o quarto agigantou-se para desabrigar minha avó. Penso que ela precisava apenas de algo tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno… como um berço.

Viúva, ela. E vestia-se de marinho ou de cinza e seus matizes. Ocupava sua cama de casal na casa de meu tio onde morava, porque assim se mantinha a hierarquia. O leito que suponho pouco usado para o prazer, mas para o descanso, a vigília e o controle. Quem não acha graça em distrações, vigia. De preferência recostada em uma cama de casal. O olhar adiante.

Quando chegamos, já estavam todos no quarto, sentados ao redor. Haviam disposto cadeiras em torno das paredes como se esperassem dança. Dois filhos, três filhas, um adotado, um deputado de passagem, dois compadres. Três dias inteiros para testemunhar como é que tudo se acaba.

Ao entrarmos no quarto, ninguém se levantou para nos receber. Estivéramos sempre ali, naquelas cadeiras. Na parede, o grande relógio marcando o tempo. E avisando. Tic Tac.

Foi quando minha tia Belé, o terço na mão, abraçou com força e raiva minha mãe. E se tornaram cúmplices de uma falta que, embora atávica, parecia nova e pessoal. Como se algum dia tivesse sido suprida ou, em algum momento, tivessem compartilhado o mesmo gosto pela dança, pelas viagens, a música e as plantas, ou a curiosidade pelos homens. Ou, ainda, tivessem se ressentido desta falta, entrelaçado as mãos e se aquecido mutuamente em silêncio. É que suas vidas tão disparatadas entre si pareciam desaguar, neste momento, em um mesmo rio que acolhe afluentes. E tudo se impactava e resplandecia naquela confusão. Uma confusão que, não para elas, mas para alguém poderia ter alguma serventia porque recendia a amor. À moda das sagas e dos romances. E depois, só se perde a mãe uma vez. É necessário encontrar a emoção precisa, o gesto adequado, evitar os excessos e a apatia, concentrar-se no foco, porque não haverá outra oportunidade.

Os vizinhos olhavam aquilo curiosos e compassivos. Nossa família permanecia fechada em si, os dedos à volta do nariz, fungando o nariz, vez em quando. Outras vezes procurando os óculos escuros, bem vindos os ares da modernidade. O cinema.

Estávamos sentados nas cadeiras. Em torno. Entre uma ida ao banheiro, outra à cozinha para comer qualquer coisa e um pulo até a calçada para respirar, se passaram dois dias. Poucas palavras e olhares porque qualquer atitude exagerada poderia macular aquele momento onde a vida deveria ser mantida em sursis, pequenos os gestos. Necessário que todos estivéssemos morrendo um pouco, para que nada se assemelhasse a abandono, egoísmo, descaso ou desrespeito. Os códigos.

Assim, deixamo-nos morrer por dois dias inteiros.

Mas, na segunda madrugada, meu pai chegou. Chegou, vindo da noite, da estrada escura, dos compromissos de trabalho. Às duas horas da manhã papai entrou naquele quarto, grave e sereno. Olhou para ela antes de nos procurar. Os olhos de minha avó que não se cabiam nas órbitas, por segundos se fixaram nele. Ela sempre olhava de baixo para cima, mas ali, foi direto ao ponto, a menina do olho. Meu pai, sem a ninguém cumprimentar, sentou-se na cama, retirou debaixo das cobertas suas mãos, constatou-as, e só então olhou para quem estava próximo do seu alcance de visão. Era Esperança, a empregada que viera com a gente.

Ali ficou durante um tempo que já não sei referir, passou a mão no rosto da vó, deslizou-a em sua pele gasta, levantou-se e sentou na cadeira que meu tio havia trazido para ele. Não olhou para ninguém, não nos procurou, não queria saber sobre nós. E em poucos minutos, quase por delicadeza, minha avó compreendeu, aceitou e se foi. As pessoas levantaram-se atordoadas, o desespero. Cada um com sua morte, seus amores e medos. Diante do grande espelho. Exceto meu pai que continuava sentado. Olhei de soslaio, cheguei a vê-lo. Orgulhoso dele em seu substantivo. Procurei Esperança com um olho só, ela toda redonda. Corri para aquela barriga cheirando a sabão, que me acolheu, pastora.

Então, com suas mãos aninhava meu rosto, transmutava minhas primeiras lágrimas em um rio por onde correm estrelas, me despia dos medos, abria a janela, assoprava na orelha e me tirava dali.

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UM DRINQUE
Champanhe!!!!

DOIS RECADOS
Não existe AMOR maior no mundo do que o que eu sinto por VOCÊ
Me ESQUECE!!!

TRÊS PAISAGENS
Ver o Pôr-do-Sol dentro do RIO NEGRO
Fazendas do interior de São Paulo e me sentir em CASA
Monte FUJI no Japão

QUATRO PROGRAMAS DE INDIO
Festa de Crente (sem bebida)
Festa de empresa
Amigos que só sugerem PIZZARIA
Ter de ir onde você NÃO QUER

CINCO DETALHES QUE FAZEM A DIFERENÇA
Receber FLORES
Um beijo de BOM DIA!
Ouvir Eu Te Amo
Cozinhar para os amigos
Ter AMIGOS

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Ele é intelectual. E sério.
Quando lhe contei que tenho um blog, foi enfático:
– ATÉ VOCÊ? Posso saber pra quê?
– Pra me expressar, suponho. (fiquei na dúvida…)
– Sei, sei…
Quarenta minutos de convencimento. De parte a parte.
Exauridos todos os argumentos, apelei:
– Até o Saramago teve um blog.
– Acontece que você não é o Saramago.
– Ele também não – Comentei e pedi a conta.

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Você conhece bem meu bom humor. Acordo sorrindo, quase. Não sabe do resto. Desconhece a noite que enfrentei, portanto não pode compreender porque sorrio de manhã. Tampouco imagina o que quero ao despertar, o que espero, a que me entrego, ao que não me dou e a quem não me mostro. A quase inércia, os bocejos e o profundo desencantamento é que me dão este humor perigosamente linear, porque suficiente, bem vindo e mal compreendido.
Mais não quero. O além é do que me defendo. Assim, o falso brilhante.
Saiba, contudo, que em um cruzamento qualquer, em um encontro aparentemente arbitrário onde este todo disforme se equilibra em uma unidade que se faz ponte, não resisto ao impacto e compreendo, participante, o enredo deste carnaval.

Então, é no meio da folia que recolho o sorriso, descarto o brilhante e, finalmente grave, levanto os olhos, estendo a mão e me ponho em marcha.

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– Alô!
– Que bom que você atendeu. Tá podendo falar?
– Estou no aeroporto, de saída pra Manaus, lembra?
– Claro que lembro. Quero te pedir um favor
– Diga
– Na verdade, vou te confiar uma missão especial
– Ôba!
– Pesquisei na Internet e me deparei com uma fulana que está vendendo aquela novela inteirinha em DVD
– Aquela?
– Exatamente. Nem tô acreditando. Quero que você dê uma checada pra mim, e veja se não é alguma roubada…
– Certeza que ela conseguiu passar pra DVD? Essa novela é do tempo de Adão cadete…
– Então! É isso mesmo que eu quero que você descubra
– Beleza! Me passa o contato por email, ok? Última chamada pro meu voo
– Brigadíssima. Beijinho. Boa viagem!

  

– Alô
– E aí, muito calor em Manaus?
– Do jeito que o diabo gosta
– Olha, entrei em contato com a tal fulana. Mandei um email pra ela e disse que meu marido está na cidade e vai procurá-la
– Só pra confirmar: teu marido sou eu, acertei?
– Evidente. E você acha que eu escolheria outro?
– Acredito que não. Ainda hoje, depois da reunião, ligo pra ela, ok?
– Tô roendo as unhas. Dos pés. Olha, o pé de jabuticaba tá brotando…
– Mesmo? Ele não tava morrendo?
– Ressuscitou, querido. Não é um bom sinal?
– É capaz. Te ligo à noite; vou voltar pra sala de reunião
– Vai lá. Ôi, tá ouvindo?
– Diga!
– Você ainda é o meu Indiana Jones…

 

– Ainda bem que você ligou. Não agüentava mais
– Peguei o endereço e passei em frente. Tô acabando de vir de lá
– Jura? E que tal?
– Meio favelão, viu? Nem me atrevi a descer do carro nesse horário
– Ah, meu Deus! Barra pesada, assim?
– Não é propriamente o Palácio de Versailles, mas amanhã, de dia, vejo melhor
– Ih, querido, se você achar perigoso, deixa pra lá…esse negócio de Internet…
– Fica fria que Indiana não pretende voltar de mãos abanando
– Meu herói! Acredita que os passarinhos tão comendo as jabuticabas antes que eu consiga pegar?
– Humm, você já foi mais esperta…
– Sabe o que eu sonhei na noite passada?
– Vou saber agora
– A gente ainda era casado. Você voltava pra nossa casa. Chegava aqui com os cinquenta DVDs da novela, botava todos os passarinhos pra correr, colhia as jabuticabas, e a gente vivia felizes para sempre…
– O resto da vida chupando jabuticaba e assistindo novela…Não foi para evitar isso que a gente resolveu dar um tempo?
– Foi só um sonho, bobo
– Ótimo, vou dormir. Amanhã teremos um longo dia
– Teremos. Com certeza. Boa noite!

 

– Oi!
– Você não ligou ontem, que aconteceu?
– O diretor alemão me alugou o dia inteiro. Cheguei quebrado ao hotel
– Nenhuma novidade?
– Na hora do almoço liguei lá. Sondei se poderia conferir os discos antes de comprar. Ela não está acostumada com isso, desconversou. Garantiu que estão em bom estado. Fiquei cabreiro
– Querido, qualquer coisa é melhor do que nada. Essa novela tem um valor afetivo muito grande pra mim, você sabe. E na íntegra, nem posso acreditar!
– Eu sei. Amanhã daremos um jeito nisso
– Escuta, e a voz dela, que tal?
– Nada muito civilizado. Selvagenzinha, talvez. Pisa duro, a fulana, viu?
– Jura?! Bom, pouco semedá. Ela tem um tesouro dentro de casa
– Olha o exagero
– Eu também já tive um, mas entreguei pro Alibabá
– OK, preciso desligar. Te dou notícia.
– Querido…
– Um beijo!

 

Diga lá!
– Achei que nunca mais fosse falar contigo. Onde você esteve todo o final de semana?
– O diretor alemão resolveu descer o rio. Passamos a noite na caça ao jacaré. E o domingo inteiro pescando
– O IBAMA não proibiu a caça ao jacaré?  
– Para os gringos, tudo. Para os brasileiros, a lei.
– O domingo inteiro pescando?
– Precisava ver a euforia do gringo quando fisgou um tucunaré
– E os DVDs, ainda nada?
– Juci deu um pulo em Parintins e ainda não voltou
– Juci?! Quem é Juci?
– A moça dos DVDs, ora essa…
– Ah, Jucicleide, a selvagenzinha…
– Essa mesma. Mas, me conta aí, e as jabuticabas?  
– Na mesma. Os passarinhos continuam dando olé!
– Bom, a gente vai se falando…
– Escuta, até quando você pretende ficar por aí?
– Até concluir minha missão, esqueceu? Indiana rides again.
– …
– Agora só saio daqui com esses discos. E quero te entregar em mãos.
– Humm…e o calor?
– Uma delícia, garota, uma delícia!

 

– Alô!
– Faça-me o favor! Duas semanas sem dar sinal de vida…
– O diretor alemão se encantou pela Amazônia e resolveu conhecer a floresta. Me levaram junto
– Duas semanas no meio do mato?!
– Você acha muito? Por acaso se esqueceu do tamanho daquilo lá?
– Que notícia você me dá dos meus discos?
– Pedi pra Juci regravar a segunda parte inteira. Estava tecnicamente lamentável.
– Você esteve com ela, então?
– Sim, fui até o estúdio de gravações
– Estúdio? Mas aquilo não era um favelão?
– Tô querendo ser gentil…
– E…que tal ela?
– É como te falei. Um tanto selvagem. Lábios roxos. Tipo açaí. Uma delícia!
– Você provou?!
– Provei?! …Ah, o açaí, evidente. É o que não falta por aqui
– Escuta. Parece que a jabuticabeira tá secando outra vez
– Cuide bem dela. Preciso dormir. Estou exausto.

 

– Fala!
– Eu posso saber o que está acontecendo por aí?
– Você não recebeu os DVDs?
– Como assim?
– A Juci te enviou pelo correio
– Mas você não vinha me entregar em mãos?
– Achei que você tinha pressa
– Pelo visto você é que não está com pressa nenhuma…
– …
– Mais de um mês enfiado nesse buraco. Não me diga que você passou esse tempo inteiro refazendo os discos com a JUCI
– Mudança de planos, darling.
– Se eu soubesse que essa missão te daria tanto trabalho, nem tinha falado sobre isso
– Não fale assim. Foi tudo providencial. E ainda hoje, mais tardar amanhã, você terá sua novela, na íntegra, a seu dispor, olha que show!
– Resolvi trocar a jabuticabeira. Aquela lá não foi pra frente mesmo. Passei no CEASA e trouxe uma já com as frutinhas. Precisa ver
– Vai demorar um pouco porque resolvi dar uma esticada
– Esticada?
– É. Cruzei o Atlântico.
– Eu bem que desconfiei. A novela foi só uma desculpa. Você viajou com a JUCI?
– De onde você tirou essa idéia? A Juci é selvagenzinha demais, não falei?
– Você está aonde, afinal?!
– Em Berlim, querida. Lembra do diretor alemão?!

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E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.

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