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Archive for abril \30\UTC 2010

Os sentimentos ternos não vou sair distribuindo assim. Do meu amor tomo conta eu e o faço sabendo que nem sempre sei o que fazer com ele. Mas o domo. Eis-me sentado sobre um cavalo em pelo que fita, teso, o desfiladeiro.

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Uma amiga querida acabou de (re)ler o clássico de Flaubert, selecionou e me enviou este trecho, que ela, leitora, jornalista e revisora da melhor qualidade, achou primoroso. Divido com você:

“Tantas vezes já aouvira dizer tais coisas, que não lhe eram mais novidade. Ema parecia-se às demais amantes; e o encanto da novidade, caindo aos poucos como um vestido, exibia a eterna monotonia da paixão, sempre da mesma forma e da mesma linguagem. Não podia alcançar, homem prático que era, a dessemelhança de sentimentos sob a igualdade das expressões. Porque lábios libertinos ou venais lhe haviam murmurado frases parecidas, quase não acreditava na pureza das que ouvia agora; achava que se devia fazer desconto nas expressões exageradas que escondiam aflições medíocres — como se a plenitude da alma não se extravasasse, às vezes, nas mais várias metáforas, pois que ninguém pode jamais dar medida exata às próprias necessidades, concepções ou dores, e já que a palavra humana é como um caldeirão fendido em que batemos melodias para fazer dançar os ursos, quando antes quereríamos enternecer as estrelas.”

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Desço do jipe e para onde me movo só vejo noite. Vamos à fazenda e até aqui só percorremos a metade do caminho. Desperto. Atravessar o coqueiro sobre o grande riacho assusta e atrai. Pé ante pé, um elefante por vez. O céu é um breu. Não consigo subir na garupa do cavalo, tropeço nas pedras. Disfarço. Não vou subir de um salto como no faroeste do cine mas me desfaço do ajudante na primeira oportunidade. Seguro firme nas costas de meu pai, sentado na sela, como quem se agarra a um saco de isopor no meio de um naufrágio. Ele não sabe de minhas mãos em suas costas; eu não percebo suas costas em minhas mãos. Olho para cima, um traço de lua; olho para fora, o mundo inteiro.
No silêncio, um gigantesco risco de prata anuncia a tempestade.

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O Apanhador de Desperdícios

 

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato

de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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