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Archive for dezembro \31\UTC 2009


           Desejo que você atravesse o NOVO ANO com o savoir-faire do BENTO neste momento: ancho, farto, forro, relaxado, confiante, gracioso, dono de si.

E fazendo charme…

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REVEION!

Neste último dia do ano pensei em escrever alguma coisa que nos lembrasse do óbvio: uma grande parte do que usufruímos – ou não – em nossas vidas, está diretamente ligado a nossas atitudes. Diz-se em minha terra: ‘não se conseguirá jamais colher laranja se plantarmos abacaxi’. Queria nos lembrar a todos que através deste simbolismo do calendário – uma meia-noite – podemos reciclar a vida, retomar planos produtivos, resgatar a solidariedade, cuidar da saúde, (des)alinhar quadros na parede, enfim, nos apossar – até onde possível – das rédeas de nossa própria vida. Assumir o roteiro.

Drumond já lembrou há anos: ‘É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre’. Gonzaguinha já cantou que ‘Somos nós que fazemos a vida como der, ou puder, ou quiser…’. Chico, dono do seu destino: ‘Vida, ah, minha vida, olha o que é que eu fiz…’

Escreveria, enfim, sobre a urgente necessidade de nos tornarmos os artífices de nós mesmos.

Acontece que me lembrei, entre as palavras, de um bela passagem da Elisa Lucinda, fremente poeta, que traduz, à perfeição, minha mensagem para esta virada, que pode – mais uma vez – fazer girar o caleidoscópio.

LIBAÇÃO

“É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a proliferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes,
os processos troncos,
os processos flores
são suas mais finas dores.

As consequências cachos,
as consequências leite
as consequências folhas,
as consequências frutos
são suas cores mas belas.

É da substância do átomo
ser partível, produtivo, ativo e gerador

Tudo é no seu âmago e início
patrício da riqueza, solstício da realeza.

É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la
não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos,
nossos fatos apinhados de pequenezas
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio

Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro

Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade ‘minha’ desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar

nos amisquinha

A vida não tem ensaios
mas tem novas chances

Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores

Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão.”

Saúde!

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Ao abrir os olhos, esta manhã, uma frase me veio à cabeça, contundente, viril e peremptória: – CAPITÃO, O TEMPO URGE!

Estou certo de já tê-la ouvido, com esta mesma ênfase, mas não lembro onde. Um livro, talvez; uma peça de teatro; um devaneio qualquer. Pensei, então, nas artimanhas do tempo, um ano chegando ao fim. Fui me ter em um texto que não se inquieta a respeito da passagem, propriamente, do tempo, mas de suas estações, todas elas profícuas e necessárias.

ECLESIASTES:

“Para tudo há uma ocasião certa;
há um tempo certo para cada propósito debaixo do ceu:

Tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou,
tempo de matar e tempo de curar,
tempo de derrubar e tempo de edificar,
tempo de chorar e tempo de rir,
tempo de prantear e tempo de dançar,
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras,
tempo de abraçar e tempo de deixar-se de abraçar,
tempo de procurar e tempo de desistir,
tempo de guardar e tempo de jogar fora,
tempo de rasgar e tempo de cerzir,
tempo de calar e tempo de falar,
tempo de amar e tempo de odiar,
tempo de lutar e TEMPO DE VIVER EM PAZ”

Desejo que 2010, logo ali na esquina, traga BOM TEMPO!

Um abraço.

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Cheguei anteontem de Belém, onde fiquei alguns dias em família. Chego sempre aos poucos porque embora não tenha dúvida que meu porto seja em São Paulo, é ali, naquela região, que está fincada minha âncora. Numa confluência imaginária entre o Rio Tocantins, o Rio Guamá e a parte do Atlântico que banha São Luis do Maranhão. Foi por ali que espiei pelas primeiras vezes este mundo vasto. Dali, daquele píer, saí para uma outra vida que me convocava desde muito cedo. Ancestrais navegadores.

Escrevi, certa vez:
‘Não é no mar, por mais que se ame o mar,
Não é no rio, por mais que se o ame,
É no riacho que se vai afundar
Só até a cintura,
Só até a moldura
E refrescar a vida inteira’

Parte de minha infância e adolescência foi passada em uma fazenda no interior de Goiás, hoje Tocantins, junto a meus pais e irmãos, e muitas vezes com tios, primos e uns poucos amigos. Lembro do silêncio, do ceu azul, da noite preta que se transmutava em prata na luz das estrelas. Do meu pai, descontraído e jovem, mandando selar os cavalos e abrir as porteiras; minha mãe às voltas com as plantas, os ovos de pata, o arroz de leite com carne de sol. Toalha branca na mesa.
Fragmentos desta infância povoada de duendes e fantasmas, a viagem dos carneirinhos que meu pai narrou durante anos, a mulher da lamparina que vagava nas noites sem lua, os banhos no riacho gelado, o vento zunindo nas frestas das janelas e a chuva da madrugada lavando telhas e medos, coloquei no papel e chamei ao conjunto destas memórias de  ‘O Rio Que Corre Estrelas’.  Tenho transcrito alguns destes fragmentos por aqui. São preciosos para mim.

Pois é de tudo isso que volto quando chego do convívio com ‘os meus’. É de uma vitória sobre o tempo. Porque nada é pretérito quando estamos juntos. Tudo se repete num milagre atemporal e inquebrantável. Está tudo ali disposto, ao alcance das mãos. Nesta moldura estamos todos ocupados e saudáveis. Ocupados como o são as crianças, e saudáveis como se sentem todos os que se percebem iluminados por um Sol.

Daqui a pouco eu acabo de chegar. Um abraço.

Na foto da Silvânia, eu e mamãe.

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POEMA

De volta a São Paulo, meia cabeça em Belém, segue esta joia de Wally Salomão, enquanto vou chegando:

Cresci sob um teto sossegado
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

             Agora, entre meu ser e o ser alheio
             a linha de fronteira se rompeu.

                                                                                                    Até já!

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POESIA

De minha coletânea ‘O Rio Que Corre Estrelas’:

Minha mãe vai me dar um beijo
E é necessário que tudo se cale,
Tudo se acalme e encontre o seu curso natural porque minha mãe vai me dar um beijo.
Vou me vestir de marinheiro,
Botar um smooking ou rasgar o jeans, furar a orelha, tatuar a nuca,
Porque é necessário personalizar este momento.
Meu rosto está aqui, minha boca, aqui.

Lá vem minha mãe estendendo-me os braços
E eu não sei quem é que me arranca destes braços
E que, mantendo o xote que toca na vitrola, me dá um beijo descontraído na face rubra
E me puxa com entusiasmo para o meio do salão.
Estreito no peito este vulto imprevisto.
Nossa sombra dança nas paredes e no telhado,
Multiplicada em mil figuras rabiscadas pelo vento que assopra a lamparina,
E nossas pernas se tornam traços de giz no chão batido.

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SABEDORIA

A carta que você vai ler a seguir foi escrita em 1854 pelo chefe indígena SEATTLE ao Presidente dos EUA, que na ocasião solicitava a compra de suas terras. Esta carta se tornou conhecida internacionalmente. Aqui em Belém, o ‘Portão da Amazônia’, onde a influência indígena ainda é patente e onde se está mais próximo de tudo o que sabemos que está acontecendo com a selva, partes deste texto me vêm diariamente à cabeça quando saio para caminhar pela manhã. Pesquisei na Internet e fiz uma edição porque o texto é longo. Se houver interesse não será difícil conhecê-la na íntegra.

Como é que se pode vender o céu, o calor da terra?! Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho das águas, como é possível comprá-los?
Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a
penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos na campina, o calor do corpo do cavalo, e o homem, todos pertencemos a mesma família.

Por isso, quando o Grande Chefe, em Whashington, manda dizer que deseja comprar nossa terra, está nos pedindo demasiado. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos, portanto nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós, e, se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se disso e o devem ensinar a suas crianças, fazendo-as perceber que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais. Se lhes vendermos nossas terras vocês devem ensinar aos seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E que, portanto, o devem tratar com a reverência e zelo com que se tratam os irmãos.

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa.

Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. O ruído parece somente insultar os ouvidos.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, insensível ao fétido odor.

Se vendermos nossas terras, o homem branco deve tratar nossos animais como seus irmãos. Vi milhares de búfalos apodrecendo na planície, abandonados por um homem que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais desaparecessem, o homem padeceria de uma grande solidão espiritual. Pois o que ocorre com os animais em breve ocorrerá ao homem. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu a trama da vida, ele é apenas um fio. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos.

Onde está o arvoredo? Desapareceu. O translúcido riacho? Desaparaceu. Onde a Grande Águia? Desapareceu.
TERMINA A VIDA E COMEÇA A SOBREVIVÊNCIA.

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